“O último desejo” – Livro

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Este é o primeiro volume de uma série de livros sobre o bruxo Geralt de Rivia, que deu origem à famosa série de jogos eletrônicos The Witcher. A capa da edição que li é uma clara alusão à isso, trazendo na frente uma imagem que remete ao personagem principal como é caracterizado nos jogos e, no verso, uma alusão à série de jogos.

A obra é estruturada em uma série de contos, que são flashbacks sobre a vida da personagem principal, precedido por capítulo de curta introdução ou alusão ao acontecimento. É um formato que possui vigor e mantém o interesse na obra, que teria tudo para ser mais um high-fantasy medieval europeu.

Um mal é um mal, Stregobor – retrucou seriamente o bruxo, pondo-se de pé – Menor, maior, médio, tanto faz… As proporções são convencionadas e as fronteiras, imprecisas.

O que torna O último desejo atraente é a carga cultural presente. O autor, polonês que escreve em polonês, bebe muito dos costumes e mitologias eslavas para a construção do mundo fictício, numa narrativa sem heroísmos exagerados ou maniqueísmos baratos. Isso é visível na forma como Geralt trata os próprios defeitos físicos e morais, mas também pelos diálogos, muito incomuns neste tipo de obra, sobre o menor de dois males, o preço da ética e culpabilidade. Sendo eu simplista, não esperaria menos de um autor do leste europeu.

Infelizmente não tenho como avaliar a tradução, pois desconheço completamente a lingua original, mas o texto flui bem e não encontrei problemas de revisão. Fica a recomendação para quem leu pouco high-fantasy ou já leu demais. Confesso que estava bem saturado da temática e seus *tropes*, mas o livro me surpreendeu. Se você já está enfadado de cavaleiros, realeza, dragões e espadas mágicas, pode ser o ar fresco que você precisa para continuar lendo o gênero.

Se você curte um joguinho, recomendo demais os dois primeiros da série (“The Witcher” e “The Witcher 2 – Assassins of kings”). O terceiro não joguei ainda.

“O século das luzes” – Livro

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O livro “O século das luzes“, do escritor cubano Alejo Carpentier, é um romance histórico sobre duas coisas: um personagem histórico controverso e uma revolução traída.

A história se passa no século XVIII, às vésperas da revolução francesa, e é protagonizada por um fictício trio de ricos órfãos, que passa seus tediosos dias devorando livros e objetos de cultura europeia, até que conhecem Victor Hughes, um comerciante maçom francês com anseios revolucionários.

Sem entrar em detalhes que estraguem a trama para os que pretendem ler, basta dizer que o resto do livro se propõe a romancear o desenvolvimento deste personagem histórico, bem como os desdobramentos da revolução francesa no mar das caraíbas e suas colônias francesas, inglesas, espanholas e holandesas.

Embora de vocabulário denso, dificultado por uma tradução que, apesar de competente, troca termos em francês por espanhol e vice-versa sob a justificativa de “dar clareza”, esta é uma leitura que recomendo muito. O estilo propositalmente barroco do autor oferece seus desafios e deixa um gosto de pedantismo e anacronia, visto que o livro foi escrito em 1956 e se passa entre 1788 e 1810, dois períodos nada barrocos :).

Victor Hughes, seu governo na ilha de Guadalupe, como a revolução francesa aportou e foi deportada das colônias latino-americanas e os levantes de escravos na região do Caribe são importantes demais para entender a forja histórica à que boa parte da América Latina foi submetida e o quão o imperialismo europeu, e até mesmo francês, do século XVIII parece inalterado, apesar da queda da Bastilha.

“Vamos pensar cada um como quiser e voltar a ser o que éramos”, disse ao sair. Mas Estêvão, a sós, sabia que aquilo era impossível. Existem épocas feitas para dizimar os rebanhos, confundir as línguas e dispersar as tribos.

Fica aqui a recomendação deste livro que faz uma aproximação suave a um contexto histórico tão importante para a formação da identidade latino-americana, e completamente ignorado na nosso currículo escolar.

Meus melhores de 2014

Esse ano foi meio corrido, tive muito pouco tempo para fazer coisas além do trabalho e do mestrado, portanto a lista abaixo é provavelmente broxante. Pelo mesmo motivo, não considerei apenas coisas lançadas em 2014, e sim se eu as experimentei este ano.


 

Melhor jogo

The Legend of Zelda – A link between worlds (3DS)

Link between worlds

Lançado no Japão como “Zelda: A link to the past 2” (tradução livre), esse jogo é o que podemos chamar finalmente de uma sequência digna ao jogo do Super Nintendo. Rodando a 60 FPS mesmo em 3D, é facilmente um dos melhores jogos do console até então. O que parece ser uma mera releitura de A Link to the Past rapidamente se torna um jogo completamente novo, com a interessante mecânica de andar pelas paredes em forma de pintura, masmorras e mapas que exploram bastante a verticalidade do cenário e o tão requisitado progresso não-linear (ausente praticamente desde o primeiro jogo de 1986). Há muito, talvez desde sempre, não jogava um Zelda em que tive vontade de pegar todos os itens, fazer todos os upgrades e cumprir todas as side-quests. Se você quer jogar apenas um título de 3DS, esse jogo seria minha recomendação.

 

Runners-up
Pokemon X/Y (3DS)
Dragon’s Crown (PS3)
Bayonetta 1/2 (Wii U)


 

Melhor livro

And then I thought I was a fish (Peter Welch)

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A auto-biografia de um rapaz que, após uma sucessão de psicotrópicos e más decisões, foi parar em uma clínica psiquiátrica. Fiz uma mini-resenha na época.

 

Runners-up
Trilogia 1Q84 (Haruki Murakami)
Sem lugar para se esconder (Glen Greenwald)

“And Then I Thought I Was a Fish” – Livro

book cover

Peter Welch é um programador americano que tem uma história incrível para contar. A versão bastante resumida tomava de 40 a 60 minutos em uma mesa de bar. Welch a contou inúmeras vezes para velhos amigos, novos amigos e desconhecidos que depois disso jamais se tornariam amigos.

De tanto relatar o (quase) mesmo testemunho um sem-número de vezes, Welch resolveu contá-lo com todos os detalhes que poderia lembrar, pela última vez. Para quem quisesse saber.

O livro “And Then I Thought I Was a Fish” é o relato de um jovem Peter Welch, então universitário que após uma dose perfeitamente aceitável de LSD e de uma sucessão incrível de decisões ruins, teve um surto psicótico e passou 3 meses internado em um hospital psiquiátrico.

A riqueza com que Welch descreve seus pensamentos, visões e intenções é interrompida vez ou outra pela perspectiva de amigos, familiares, boletins de ocorrência e relatórios psiquiátricos.

Estudante, garçom, peixe, líder espiritual, divindade, ajudante do Dr Who, dançarino, dragão, ladrão de almas. Welch foi muitas coisas durante esses meses alucinados do verão de 2000.

Incrivelmente engraçado, particular e ao mesmo tempo universal de algum modo. Mais que um livro sobre a história de Welch, é a história sobre a razão de escrever o livro.

O livro pode ser comprado na Amazon em formato físico ou digital por um preço bastante razoável.